Parecia que foi coisa divina terem escolhido o Chris Rock para apresentador do Oscar tendo em vista os boicotes que Jada, Will Smith e Spike Lee estavam promovendo semanas depois de sua escolha. Chris, como negro, estava sendo pressionado para boicota-lo também e ainda bem que não o fez. Apresentar o Oscar seria a oportunidade perfeita para falar sobre a falta de oportunidade dos negros em Hollywood e claro para alfinetar os produtores de cinema que impedem que essas oportunidades aconteçam. Seu discurso foi cheio de critica e bom humor e ele falou muitas coisas coerentes como na parte que ele diz:
“A grande questão é: por que estamos
protestando? Por que nesse Oscar? É a 88ª edição do prêmio. Quer dizer que essa
coisa toda de não indicarem negros aconteceu pelo menos outras 71 vezes. Você
imagina que poderia ter acontecido nos anos 50, nos 60... e tenho certeza de
que não houve indicações. Sabe por quê? Porque nós tínhamos coisas de verdade
para protestar contra naquela época. Estávamos ocupados demais sendo estuprados
e linchados para se importar com quem venceu melhor direção de fotografia.
Quando a sua avó está enforcada em uma árvore, é realmente difícil pensar em
quem venceu o melhor curta-metragem de documentário estrangeiro.”
Concordo
plenamente com ele. Existem sim muito mais coisas importantes para nos
preocupar do que quem ganhou tal premio em determinada premiação. Os negros já
passaram por tantas coisas ao longo da historia. Segregação racial, a apartheid
na África do Sul em 1948, as diferenças salariais que até hoje predominam e
etc...
Para
se ter noção a primeira atriz negra da historia a ganhar o Oscar foi Hattie
McDaniel que interpretava uma empregada doméstica no filme E O Vento Levou... Sua
atuação foi digna do premio e sim foi uma vitória ela ter sido reconhecida numa
época de forte segregação nos Eua, mas ao descer do palco ela voltou para sua
mesa numa área separada, exclusivamente para negros, perto da cozinha (fonte:
Uol) ela foi agraciada por seu talento merecidamente? Sim mas na hora em que
seu momento de gloria acabou ela voltou para o seu lugar no teatro e na
sociedade também. E ela não ficou triste por isso, pois disse que se não
estivesse interpretando uma empregada ela seria uma. Olha o tamanho da verdade
nisso. Na maioria das novelas e dos filmes quem interpretam os serviçais sempre
são atores negros e na vida real a dificuldade do negro de conseguir trabalho e
boa educação são gritantes. Por isso filhos de pessoas negras tem mais
dificuldade de ingressar no ensino superior tendo que optar pelo regime de
cotas que apesar de ajudar também é separatista e discriminatório. O que nos
leva a uma parte do discurso que eu tentei encarar como piada (assim como todo
mundo encarou), mas vi muita seriedade no sarcasmo do apresentador quando ele
disse:
“Você quer indicados negros todo ano? Você só
precisa ter categorias para negros. Vocês já têm para homens e mulheres... Pense
bem, não faz sentido ter uma categoria para homem e outra para mulher em
atuação. Não tem por quê! Robert De Niro nunca
pensou: 'Vou aliviar um pouco nessa interpretação para que a Meryl Streep me
alcance'. Não, de jeito nenhum!”
Eu
realmente quero encarar isso como piada. Sim há uma critica ao sexismo ai, mas
acredito que deve haver sim uma separação entre categorias femininas e
masculinas, até porque se os negros já são difíceis de serem indicados imagina
as mulheres... e negras ainda por cima? Ia ser mais uma luta a ser travada já
que aqueles que votam são em sua maioria homens, brancos e acima dos 60 anos.
Sendo que a presidente da academia Cheryl Booner, é negra e pretende mudar esse
quadro e colocar as minorias na mesa de votação, a própria ficou desapontada
com a falta de negros indicados nesses últimos dois oscars.
Viola
Davis quando questionada sobre sua posição a respeito do boicote ela disse: “O problema não é o Oscar, o problema está no sistema de se
fazer filme em Hollywood” ela ressaltou que deveria
haver uma preocupação de quantos filmes de negros estão sendo produzidos
anualmente e como estão sendo distribuídos. Ela foi a primeira atriz negra a
ganhar o premio de melhor atriz no Emmy e em seu discurso disse: “Deixem-me
dizer uma coisa: a única coisa que separa as mulheres de cor de qualquer outra
pessoa é a oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que
simplesmente não existem”
Quantos
filmes com protagonistas negros estão sendo escritos? Quantas séries? E quantos
livros? O problema não é o Oscar é toda a sociedade. Quantos pares em comédias
românticas são pessoas negras? Quantos heróis negros têm? Quantas princesas da
Disney são negras? (Só uma). Pode até haver alguns, mas a maioria esmagadora
são de brancos. É isso que Viola Davis quis dizer. Ela nunca interpretaria
Annalise Keating se Shonda Rhimes (produtora negra) não a criasse, assim como
ela também criou a Olivia Pope de Scandal. Viola já havia sido indicada ao
Oscar por The Help e ganhou por sua personagem incrível nessa série. E a série
em si critica bastante o preconceito que as pessoas tem pelos negros na sociedade
e inova ao colocar quatro negros no elenco principal. Nenhuma atriz negra
ganhou o Oscar na categoria de melhor atriz, mas duas que ganharam de
coadjuvante, Lupita Nyong’o e Octavia Spencer, ganharam por papeis
estereotipados, uma era escrava e a outra empregada.
Outra
parte interessante do monologo foi quando ele disse...
“O que quero dizer é que não se trata de
boicotar as coisas. O que a gente quer é oportunidade. Queremos que atores
negros tenham as mesmas oportunidades. E só. Não só de vez em quando. LEO consegue
um grande papel todo ano. Todos vocês conseguem grandes papéis o tempo todo. E
os negros?”
E
isso complementa bem o que eu estava querendo dizer ali em cima. Tem de haver
oportunidade. Muitas partes do discurso foram muito bem colocadas, mas mesmo
assim percebemos que ele estava cheio de dedos ao falar, estava tentando
apaziguar as coisas, botar panos quentes e isso a gente já sabia que iria
acontecer, pois a academia não iria deixar que falassem mal da academia. Só não
foi legal ele atacar diretamente sua companheira de Madagascar Jada e Will
quando eles estão do mesmo lado e procuram pelas mesmas oportunidades mesmo ela
sendo da TV e ele ganhando milhões. Isso não interessa. Mas as provocações não
ficaram só no monologo, durante toda a premiação houve diversos vídeos bem
humorados que criticavam a exclusão dos
negros. Bem coerente ele ressaltar que o governo gastaria milhões para resgatar
Matt Damon de Marte, mas se fosse ele eles fingiram que nem estavam ouvindo.
Teve até entrevista com telespectadores. Essas foram as melhores coisas tirando
a parte das crianças asiáticas.
E
como ele disse as mudanças já estão acontecendo ele citou o “Rocky negro” Creed
que foi um ótimo filme sobre um ótimo personagem negro (merecia uma indicação
ao Oscar, mas tudo bem...) pena que ele apenas o comparou com ironia há Star
Wars e não citou o trunfo do novo filme que foi colocar um ator negro como um
dos protagonistas juntamente com uma mulher e um latino. Três minorias que não
representam os votantes do Oscar, juntos em um filme clássico de ficção
cientifica.
O
Monologo do Chris Rock foi importante sim e teve grandes momentos, como ele
disse estamos melhorando aos poucos essa questão racial, os negros venceram
algumas lutas no cinema esse ano, dentro de um ringue, dentro de uma nave
espacial, dentro de um tribunal e em algumas premiações, mas Hollywood continua
racista e continua xenofóbica, mesmo que o apresentador tenha amenizado as
coisas. Ele poderia ter proposto soluções para o problema e não atacar seus
colegas negros, ele deveria apontar mais culpados e mostrar mais o seu lado do
jeito que ele fazia na série Todo mundo odeia o Chris onde ele usava da comédia
para ironizar a forma que a sociedade via os negros. Mas havia medo ali, ele
não poderia ser aquele roteirista sarcástico do cotidiano. E parecia que a audiência
negra já sabia disso, pois nos EUA só 9,4% deles assistiram a premiação, eles
realmente boicotaram, fazendo com que esse Oscar tivesse a menor audiência dos últimos
8 anos. Porem a mensagem era para os brancos, que eles se conscientizem que deem
mais oportunidade para as minorias, que deem um lugar para eles no meio dos
votantes da academia, que parem de dar-lhes papeis apenas de serviçais ou
escravos, que parem de achar que as negras são sempre escandalosas, que os
latinos são burros e apenas cômicos, que parem de perguntar para as mulheres “o
que você está vestindo?” nas premiações elas estão lindas independente do
estilista e que perguntem mais a elas. Precisamos de mudanças na academia cinematográfica
sim mas para isso essa mudança tem que começar pelas pessoas.

