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domingo, 17 de abril de 2016

Review Antes do Baile Verde


          Esse foi meu primeiro contato com Lygia Fagundes Telles e confesso que à princípio senti uma certa estranheza em seus contos. Não há dúvidas de que ela é uma excelente contista e que apesar de lançado há muitos anos seus contos tem uma fluidez admirável. Até as palavras mais cultas são facilmente interpretadas, assim como as gírias do passado. Porém fiquei confusa com o encerramento de cada conto. Eles terminavam de uma forma tão simples e aparentemente sem significado que me perguntava se havia perdido alguma coisa. Ficava buscando na minha mente uma interpretação para o término sutil de cada um e não sabia o que eles realmente queriam dizer, isso se eles tinham como proposito dizer alguma coisa, até que minhas dúvidas em relação a isso foram sanadas no mesmo livro.
           No final do livro depois que os contos se encerram há breves explicações dos contos de Lygia, mais precisamente os que se destacaram. E olha que Lygia tinha 60 textos em mãos e teve que peneirar apenas 16 para a edição de O baile verde lançada em 1970. Nessas explicações que parem uma espécie de resenha os autores parecem carecer do entendimento dos desfechos dos contos assim como eu, e assim como muitas pessoas que já leram este livro. Além dessas “resenhas” ainda há uma carta cheia de elogios de Carlos Drummond de Andrade, seu amigo e outros depoimentos.

          Os contos de Lygia trazem quase sempre personagens amargurados e solitários de classe média alta. Sempre em situações que começam calmas e depois descambam para o desespero como em A Ceia. Há uma certa atenção aos objetos da narrativa e como eles significaram ou podem significar algo para alguém, como o famoso saxofone que parece interligar dois contos, são eles: Apenas um saxofone e O moço do saxofone. Apesar da felicidade aparente eles sofrem por algo ou alguém e sabem de segredos que o outro personagem da narrativa nem desconfia como no caso do conto As Pérolas e em O menino. Há também os contos com elementos misteriosos e sobrenaturais, como Natal na barca e Venha ver o pôr do sol, dois que eu particularmente gostei muito graças a esses elementos. Os anões da pensão também soam místicos. E há também críticas sociais, como no conto que dá nome ao livro, em Antes do Baile verde a mulher vive um dilema, ela está fantasiada e pronta para ir para o carnaval, enquanto seu pai está convalescendo na cama. No meio das pessoas ela mostrará uma felicidade aparente pulando carnaval enquanto em casa há tristeza pela situação do pai. Essa é uma realidade dos brasileiros que só vivem de aparência.


[SPOILER]

        O conto que eu mais gostei foi o último, intitulado de O menino, ele é o mais explicativo e o que traz a traição como uma realidade que pode deixar marcas. Nele não há coisas sobrenaturais e nem coisas que ficam no ar, não há o que se descobrir, temos seu encerramento em mãos e ficamos perplexos com seu resultado. O conto começa com o menino (que não possui nome) admirando profundamente sua mãe que se arruma para ir ao cinema com ele, no caminho ele quer exibir sua mãe para os amigos, essa mãe que ele considera a mais bela e a melhor de todas, a mulher perfeita, tanto que quer casar com uma mulher igual a ela quando ele crescer, sua admiração é tanta que vemos um complexo de édipo ali. No cinema se senta um homem ao lado de sua mãe, ele não o conhece, mas a mãe conhece muito bem e durante a sessão eles trocam carinhos e gestos de mãos, o menino fica perplexo com a situação, até porque sua mãe é casada e então começa a enxerga-la de outra forma, não quer mais andar de mãos dadas com ela, não quer mais exibi-la para ninguém, ele quer chegar em casa para ficar com o pai feio. Sua afeição é transferida graças a um ato visto por ele como imperdoável.
             Todos os contos da autora são maravilhosos e podemos aprender com cada um, é certo que gostei mais de uns do que de que outros, o A caçada e Um chá bem forte e três xicaras não me empolgaram tanto na leitura quanto os outros. Mas de todos dá para absorver alguma coisa. Se assim como eu você nunca leu nada da autora sugiro que também comece por esse, vou encerrar com uma citação que Lygia fez em uma entrevista e que me marcou bastante: “O escritor pode ser louco, mas não enlouquece o leitor, ao contrário, pode até desvia-lo da loucura. O escritor pode ser corrompido, mas não corrompe. Pode ser solitário e triste e ainda sim vai alimentar o sonho daquele que está na solidão”