quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Review livro e filme Me chame pelo seu nome


          Talvez esse seja o filme mais popular que foi exibido no Festival do Rio, tanto que as sessões estavam bem cheias. Ouvi falar dele muito casualmente e logo me interessei, acredito que com a maioria do publico naquelas salas de cinema aconteceu a mesma coisa, a temática LGBT (mesmo que o filme não procure levantar a bandeira explicitamente) e o fato dele ser franco-italo-brasileiro e estadunidense chamou bastante a atenção, além de ter sido bastante prestigiado nos festivais. Esse é daqueles filmes que não é para ser rotulado como um “filme gay” como muitos estão fazendo, algumas vezes de forma pejorativa, ele é um filme sobre amor, desejo, amizade, primeiras experiências e experiências únicas que poucos têm a oportunidade de ter em sua vida.
           Me chame pelo seu nome é baseado em um livro homônimo que conta a história de Elio e Oliver, Oliver que está em processo de criar um livro e vai passar uma temporada na casa de um escritor, o pai de Elio, assim eles se apaixonam.
             Depois do burburinho causado pelo filme no festival de Sundance, surgiu uma grande curiosidade acerca desse romance, que me fez ler o livro antes. Ele foi escrito por André Aciman e lançado em 2007. Ele é narrado em 1° pessoa, do ponto de vista de Elio. Não posso falar acerca da tradução, pois li a versão original em inglês e mesmo contendo palavras diferentes do velho e conhecido inglês coloquial, consegui entender as coisas pelo contexto. A escrita é fácil de compreender e muito poética, há um capricho nos diálogos e nos pensamentos de Elio que torna a narrativa mais rica e bonita, até mesmo na famosa parte do pêssego, aliás, no filme ela é um pouco diferente, mais amenizada, mas tem a mesma função, que é mostrar as descobertas sexuais do protagonista.
             O filme é bem fiel ao livro e traz toda a beleza dele, os cenários bucólicos, as cores pasteis, o clima veraneio, está tudo ali. Além da química incrível entre os protagonistas. Timothée interpreta Elio, esse menino de 17 anos que é um leitor assíduo e que gosta de traduzir musica. Sua atuação é modesta, mas significativa, ele transmite emoções com muita facilidade, seu desejo por esse homem que acabou de chegar é transparente, assim como o embate entre o certo e errado que esse desejo acarreta. Oliver é interpretado por Armie Hammer, que mesmo fazendo esse príncipe encantado alto e sensual não fica caricato, seu rosto perfeito e corpo escultural não é um empecilho para sua atuação, que é ótima mesmo sendo sutil, aos poucos sua personalidade vai se sobrepondo e sua boa atuação está sempre presente. 


          As escolhas para o restante do elenco também foram certeiras. Os personagens são complexos em sua execução, mas ao mesmo tempo naturais e corriqueiros, e os atores conseguem fazer isso muito bem, principalmente os pais de Elio e a atriz Esther Garrel que interpreta a Marzia. No final há um dialogo muito tocante entre pai e filho que fez muitas pessoas se emocionarem, acredito que ele afeta mais ao publico LGBT, que sofrem tanto para se assumir e veem nessa dinâmica familiar uma relação dos sonhos. Cada palavra do livro é levada para tela nessa cena trazendo uma identificação tocante. 
            Mesmo que o filme seja chamado de “filme gay” ele não pode ser definido assim, afinal, os personagens são bissexuais, e a temática não tem a ver com a luta LGBT, tem a ver com o amor entre duas pessoas e as descobertas sexuais de Elio. Não há sofrimento para se assumir e nem maus-tratos aos que fazem isso, só amor e serenidade em uma relação completamente natural, mesmo que escondida a principio. E o filme causou muita polêmica pelo fato de Oliver ser mais velho (24 anos, nem tanto assim vai) e Elio ter só 17 anos, muitos acusaram o livro e o filme de pedofilia, porém Elio já tem uma idade de consciência que pode responder por seus atos, ele não é coagido a nada, e muitos romances heterossexuais já foram protagonizados por personagens com essa diferença de idade e não foram criticados por isso. ps: Contudo, estou aberta para ouvir opiniões diferentes (principalmente vinda de profissionais como psicólogos e etc) nos comentários....
           Outra questão que criticaram, mas que ao assistir o filme ela é imperceptível é se um homem extremamente bonito como o Oliver se interessaria por um menino franzino e de beleza mediana como o Elio. Outros tocam na diferença de idade também, pois alegam que um menino novo e sem experiência não tem nada de interessante para mostrar para um homem mais velho. Por mais fútil que seja uma discussão desse tipo temos que ter em mente que Elio é um personagem diferente dos outros meninos de sua idade, como cresceu em um lar de escritores ele é um leitor voraz e sabemos que a leitura enriquece a mente e o vocabulário dos que leem e isso é uma coisa que o casal tem em comum, afinal, Oliver é escritor. As afinidades começaram daí, aos poucos Elio vai se mostrando ainda mais atraente graças ao seu gosto musical e sua forma doce e educada de tratar as pessoas, que difere da rebeldia dos adolescentes. Por mais abrupto que seja o interesse de Oliver pelo rapaz, aos pouco ao conhecê-lo melhor colocamos os dois no mesmo patamar, lembrando que Oliver não é só um rostinho bonito, ele tem quase as mesmas características de Elio, nos fazendo se questionar no começo se o menino o queria romanticamente ou queria ser ele.
            Me chame pelo seu nome é um filme de muitas nacionalidades mas que tem os dois pés fincados no cinema Italiano, que é aquele cinema intimista e romântico, que te encanta e te leva as lagrimas (ele não me fez chorar mas me sensibilizou bastante) o roteiro além de fiel também é bem escrito e a direção de Luca Guadagnino (que esteve no Brasil para o festival do Rio) é cuidadosa e bela, assim como os cenários naturais italianos que são tão simples e bonitos que dá vontade de pegar o primeiro avião para a Itália. Call me by your name é um filme poético (como o livro) bonito, tocante, irreverente, corajoso e bem realizado. Uma preciosidade que pode afastar alguns preconceituosos e também alguns que estão julgando ele sem ao menos ter assistido, mas que marca quem o assiste. Será que vem indicação ao Oscar ano que vem?

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