sábado, 27 de fevereiro de 2016

Indicados ao Oscar: Spotlight


          Assim como em Room, Spotlight traz um assunto bastante delicado que poucas pessoas sabem como lidar, situações que podem traumatizar vidas, e ambos os filmes tratam disso com bastante cuidado, só que Spotlight dá muito mais alfinetadas.
O filme é sobre um grupo de jornalistas que investigam casos de pedofilia causados por padres em Boston. Ele é baseado em fatos reais. (Esse ano a maioria dos filmes indicados são baseados em fatos reais)
          Durante todo o filme acompanhamos as descobertas dos jornalistas e como eles passaram de casos de uma cidade para o mundo todo, já que isso não é um problema apenas de Boston pois sabemos que é uma triste realidade que afeta toda a escala global. Quantos casos de pedofilia já foram noticiados aqui no Brasil? E no mundo inteiro? Como é dito no filme isso é praticamente um “fenômeno” pois acontece demasiadamente e sempre as vítimas possuem as mesmas características. Elas são crianças pobres (meninos em sua maioria) que tem um lar desestruturado e que não possuem uma figura paterna em casa. O filme também mostra o temor da família ao denunciar os casos de abuso, mas não por medo de ameaças de morte ou algo do tipo, mas eles possuem um temor religioso, como se fosse pecado denunciar essas práticas feitas por homens ditos como “santos” Nos depoimentos das vítimas do filme eles contam que os padres eram como um “Deus” para eles, e como você vai dizer não para Deus? Isso seria totalmente doentio se não fosse plausível pois sabemos que isso deve ser exatamente o que se passa na cabeça dos “sobreviventes” (como eles são retratados no filme) e da família deles. Acredito que isso também se passe na vida real. O filme expõe o ponto de vista deles. A vergonha e os traumas ocorridos depois das práticas. Alguns viram alcoólicos e uns até se matam pelo constrangimento.
            Um depoimento que me deixou particularmente chocada no filme foi o de um rapaz homossexual que já sabia que era desde criança, desde a época dos abusos, mas não falava para ninguém e ele praticou sexo oral e outras coisas com o padre pois ele era o único que aceitava a homossexualidade dele e se um padre que deveria abominar essa “pratica” te compreende e te aceita como você vai se negar a ele? Isso nas palavras do personagem. Achei bastante perturbador.

            O número tão grande das descobertas também é assustador. No final do filme eles mostram uma lista dos casos descobertos pelo mundo e é uma estatística enorme. Realmente o “fenômeno” já citado, pois esse tipo de comportamento regular dentro de um grupo que deveria significar santidade é quase uma doença. É difícil para qualquer um compreender o porquê desses números, o porquê de eles fazerem isso, o porquê deles se aproveitarem da inocência e da carência das crianças.


         Toda essa investigação é feita por personagens determinados e um elenco com bastante química. Tanto que ganharam o Sag como melhor elenco. Michael Keaton está mais forte do que nunca, depois de seu ressurgimento ano passado com Birdman e agora interpretando muito bem um homem focado e compenetrado em seu grupo e suas funções ele mostra que veio para ficar e esperamos sinceramente que ele continue nesse caminho. Rachel McAdams é a única mulher no grupo e também está ótima no papel, mesmo que não tanto ao ponto de ganhar na categoria de melhor atriz coadjuvante na qual está indicada, sua personagem está muito parecida com outra dela, mas da série True Detective. Mesmo que numa versão menos durona e mais compreensiva. Mark Ruffalo fez o contrário de Rachel, enquanto ela estava bem sem se esforçar, ele parecia que estava se esforçando há todo tempo. Mas com esse esforço todo não conseguia acertar o tom da atuação, da dicção e dos trejeitos, estava certa de que criticaria extremamente ele até uma certa cena no final onde ele discute com o personagem de Keaton, foi como se o Hulk tivesse se libertado daquele Bruce Banner irritante do restante do filme.
          O outro membro do quarteto também é excelente assim como Stanley Tucci (um ótimo ator só que sempre coadjuvante) Liev Schreiber e John Slattery. Realmente um elenco de peso. Até os atores que interpretaram as vítimas eram excelentes. Foram escolhidos a dedos de ouro.
         O diretor Thomas McCarthy que antes não fez nada de notório faz um excelente trabalho com esse filme que é lento em toda sua narrativa, mas que nem por um segundo é entediante. Você fica imerso naquela investigação mesmo já sabendo a verdade. Spotlight desafia a igreja católica e mostra como ela ainda tem grande influência sobre o estado assim como na era medieval. 

Indicados ao Oscar: Joy: O Nome do Sucesso


         Esse é mais um filme do combo: David O. Russell, Jennifer Lawrence, Bradley Cooper e Robert De Niro. É um filme que conta a história real de Joy, uma inventora e empresária que inventou o esfregão. Essa pode ser a sinopse apresentada por todos, mas Joy é muito mais do que isso, se foi fielmente retratada ela passou por maus bocados na vida. Com uma família disfuncional ela tinha que cuidar de todo mundo. Da mãe que era depressiva e só ficava dentro do quarto assistindo novelas, do pai que é meio pirado e vai morar na casa dela, do ex marido que vive no porão da casa dela, da avó que é a narradora do filme e dos dois filhos.
              De começo você acha absurdo uma família como aquela, “tão diferente de todas as famílias diferentes”. Como o marido vive na mesma casa depois de dois anos separados? Mas aí depois vamos percebendo o porque daquela situação. Ele é um cantor de boate que não tem grana ai vira um “encostado” na casa dela. O pai é outro problema, vive em pé de guerra com a mãe de Joy e ex esposa e é largado na casa delas por uma namorada que não o aguentava mais. E ainda tem uma meia irmã presunçosa e invejosa que enche o saco dela. Quem assiste percebe o quão é difícil ser ela. Cuida de todos, mas ninguém cuida dela. Até em encanamento ela mexe.
Desde pequena era uma inventora e adorava criar, numa dessas ela tem a ideia do esfregão, o desenha, o constrói, o patenteia e vai parar na televisão para vende-lo. Fracassa, depois tem sucesso, depois fracassa de novo e declara falência ai advinha? Vem o sucesso novamente e ganha muito dinheiro. Isso não é spoiler pois só pesquisar a Joy da vida real para ver isso.
                   Jennifer Lawrence é uma ótima atriz e nada do que faça será ruim. Nesse ela está igualmente bem, mas nada que possa faze-la ganhar um Oscar e nem ao menos ser indicada. A impressão é que não acharam ninguém melhor para indicar e botaram ela mesma, já que a academia gosta muito dela e ela tem simpatia com o publico. O problema é que já estão começando a forçar a barra e estão fazendo com que até pessoas que são muito fãs dela como eu fiquem cansados de sua presença no meio dos indicados. Amo esta mulher maravilhosa mas espero sinceramente que ela não ganhe dessa vez. Eu ainda não entendi porque o diretor David O. Russell insiste em coloca-la como mãe ou viúva (no caso do filme O Lado Bom Da Vida) ela é uma jovem que assim como eu tem 23 anos. Neste filme isso incomoda bastante já que a filha mais velha dela é grandinha e parece mais irmã ou sobrinha dela. Acho que o diretor gosta tanto dela que insiste em coloca-la em papeis que seriam para mulheres na faixa dos 30 anos. Ela meio que despropositadamente tira a vaga dessas mulheres.



          Robert De Niro continua confortável e sem se esforçar nas suas atuações e até Bradley Cooper pegou sua doença desta vez. Seu personagem aparece pouco, mas até nessas poucas vezes vemos uma atuação de um homem que parece está exausto e querendo fazer sua cena e ir logo para casa. Os outros personagens também estão apáticos.
      David O. Russell é um bom realizador, mas dessa vez parece que está apenas cumprindo a cota de filmes por ano, mesmo que o filme não seja ruim e que algumas cenas valham a pena. Como as que Joy parece estar dentro da novela preferida da mãe e das vezes que ela vence seus desafios. Há algumas bem emocionantes e o filme é bonzinho mas nada de excepcional. Lembro que quando ouvi falar dele e soube que era sobre a inventora do esfregão fiquei meio WHAT??? Qual a necessidade? Mas é uma boa historia de vida, mesmo que ainda seja sobre a “mulher do esfregão” talvez um dia façam um filme sobre quem inventou o pau de selfie, quem sabe? 

Indicados ao Oscar: A Grande Aposta


          A Grande Aposta é um daqueles filmes que você reconhece que é genial mesmo sem ter entendido nada. Ele é sobre quatro gestores que previram o colapso da economia mundial. É baseado em uma história real e no livro de Michael Lewis.
          Ele está indicado em cinco categorias e merecia muito na categoria de melhor roteiro adaptado pois a linguagem técnica dele impressiona. Ele tenta explicar para os leigos o que aconteceu em 2008, onde ocorreu uma das maiores crises imobiliárias, só que é muito difícil explicar isso para pessoas que assim como eu não entendem nada de economia e cálculos. E o grande mérito do filme é justamente o roteiro com todas essas camadas de genialidade e referencias.
          As atuações também são fortes. Steve Carell tem alguns momentos engraçados sem ao menos estar fazendo graça, seu personagem possui alguns momentos cômicos apesar de ser temperamental todo tempo (deve ser aí que está a graça) a forma como ele entra nos lugares, rouba a cena e depois sai falando no celular é hilário. Há duas cenas do tipo e você ri fazendo cara de what the fuck? Nas duas. Steve está muito bem e vem se fortalecendo cada vez mais nos papeis dramáticos. Outro que também está muito bem é Ryan Gosling, num personagem excêntrico e seguro de si. Ele que é o narrador da trama e vai esclarecendo algumas dúvidas para os tais leigos citados acima. E ele faz uso da quebra da quarta parede, ele fala com o espectador e além das dúvidas também fala mal dos outros e solta comentários questionáveis. Um recurso muito bem empregado no filme e do qual realmente não estamos cansados. Seu personagem lembra o de Leonardo Dicaprio em O Lobo de Wall Street, só que numa versão menos pirada.

          Mas o grande destaque é realmente Christian Bale, tanto que está concorrendo ao Oscar como melhor ator coadjuvante. Se não estivéssemos tanto na torcida por Sylvester Stallone ele poderia facilmente ganhar essa. Essa é uma das categorias mais difíceis pois todos os coadjuvantes tiveram excelentes atuações. O personagem de Christian é um sujeito introspectivo, esquisito, mas muito visionário e inteligente. Ele é o tipo de patrão que vai trabalhar de bermudão, camisa, chinelos (as vezes fica descalço) e possui um corte de cabelo mais esquisito do que ele. Ele fica tocando bateria e ouvindo rock. Tem um olho de vidro e não gosta de trabalhar em grupo. Fica dias em sua sala, as vezes sem até tomar banho. Não é um cara ruim mas tem suas convicções e segue em frente nas suas ideias, tanto que previu a bolha nas ações imobiliárias e investiu em suas ideias enquanto todos o achavam louco. Bale é um excelente ator e já provou isso diversas vezes e nesse ele está sensacional.


          Os outros atores coadjuvantes também são bons e olha que o time é grande, pois eram várias pessoas com um único objetivo no filme. Brad Pitt também integra o elenco mesmo que discreto, mas competente. Poderiam colocar qualquer outro ator em seu lugar e ele foi lá e fez um papel totalmente secundário sem problemas de querer aparecer.
          A grande Aposta não foi um dos melhores filmes indicados que vi até agora. Mas esse é um gosto muito pessoal pois reconheço todas as qualidades do filme. Boa direção de Adam McKay, bom roteiro, boas atuações, mas mesmo assim não conseguiu me captar. Chegou a ser cansativo algumas vezes, mas algumas cenas nos traziam de volta, como aquelas que algum famoso aparecia para explicar algum conceito, teve participação da linda da Margot Robbie e da estrela teen Selena Gomez. É certo que gerou debates quando terminei de assistir, mas não é um filme que eu queira ver de novo. Ele é o típico cumprimento de função, vi para o Oscar, pronto, já não vejo mais. Diferente dos outros que vi até agora, pois quero assisti-los mais uma vez. Um ótimo filme só que com uma linguagem tão difícil que pode afastar o público.  

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Indicados ao Oscar: O Regresso


          Todo ano tem de haver um filme sobre sobrevivência e superação. Este quase empatou com o Quarto de Jack na sofrência, mas conseguiu supera-lo nesse quesito.
O regresso conta a historia real de Hugh Glass que é atacado por um urso e deixado para morrer por seus companheiros de expedição. Mas ele sobrevive e vai atrás do homem que matou seu filho e quase o matou.
             O filme já começa com uma ampla cena de luta travada entre os comerciantes de pele que Glass pertence e os índios locais. Nisso já percebemos que o filme é muito mais do que sobre um cara que foi atacado violentamente por um animal e sobrevive. O filme fala um pouco de história e de como aconteciam os embates entre os homens brancos e os indígenas. O expectador é induzido a torcer pelos brancos já que são eles os principais da trama, mas aos poucos começamos a questionar se os “vilões” retratados no filme que atacam e matam as expedições são realmente os malvados. e caímos na real de que quem está matando, ferindo e dizimando um grupo e seus animais são os “caras pálidas”

          Antes de qualquer analise performática que possamos fazer primeiro paramos para admirar a arrebatadora fotografia e os conhecidos planos sequencias tão característicos de iñarritu. Na primeira cena de confronto e nas outras cenas do tipo a câmera não se atem apenas na luta central, ela amplia a imagem a fim de que todos os ângulos sejam captados, afim de que flechas surjam sem nem sabermos da onde vieram. E de forma alguma ficamos confusos ou perdidos na situação. Conseguimos captar cada embate e entender cada conflito. Só um ótimo diretor e uma ótima direção de fotografia podem fazer isso. Todo o visual do filme é maravilhoso. As imagens são quase protagonistas. O filme é tão artístico que o próprio diretor se orgulhou tanto que disse que seu filme deveria ser exibido em um templo. Sua direção foi excepcional e o filme é quase perfeito tecnicamente, mas pera ai né... (menos kirido) para quem não sabe ele foi gravado sem luz de estúdio, apenas com a luz do sol e poderia ter ficado ruim, mas ficou muito bom e muito mais realista. Acho que depois do plano sequencia o diretor conseguiu inovar com mais uma técnica (que provavelmente será popularizada)


          Há quem diga que o filme apela muito para vencer a estatueta dourada, que é o típico filme que ganha o Oscar e dá o Oscar ao seu pobre protagonista que sofreu demais durante as filmagens. É certo que filmes desse tipo onde o ator ganha ou perde peso, sofre com a temperatura e tem danos corporais tem uma cadeirinha cativa na premiação e antes de assistir também pensava que o fato do Leonardo DiCaprio estar indicado é justamente por isso mas ai eu assisti e vi que apesar de que lutar com ursos, perder o filho e dormir na carcaça do animal são fatores que contam ponto não podemos desmerecer a atuação dele por isso pois ele faz jus à sua indicação e não porque a academia está em debito com ele mas porque ele realmente merece por esse papel. Seu personagem apesar de guerreiro é um homem obediente e de temperamento calmo e ele consegue encarnar isso perfeitamente, tão diferente dos seus personagens em O Lobo de Wall Street e Os Infiltrados onde fazia papeis de homens temperamentais. Leo está bastante centrado e toda sua atuação está no olhar e nas expressões faciais. O Urso além de debilitar seu corpo também debilitou sua voz e por isso Hugh Glass quase não fala. Então ele usa toda sua experiência e boa atuação através de expressões. Ele é um candidato fortíssimo e ao que tudo indica ganhará o Oscar, estou na torcida com toda certeza. Outro que está indicado ao Oscar, mas de melhor ator coadjuvante e que também faz jus à sua indicação é Tom Hardy. Tive um passado de implicâncias com esse ator, mas ele cresce e melhora a cada filme. Ele está meio calvo no filme e tem uma personalidade rústica e insensível. Hardy é o homem perfeito para o papel, pois possui essa cara constante de invocado . Domhnall Gleeson também está ótimo como o chefe da expedição e não cansa de provar que é talentoso e versátil. Will Poulter saiu de Maze Runner pra provar que consegue se virar no mundo lá fora, apesar da cara de malvado ele faz um personagem bonzinho nesse e convence perfeitamente.
          O Regresso talvez seja o filme que pela primeira vez dará o Oscar consecutivo há um diretor, pois Alejandro Inarritu acertou na mão de novo e é forte na categoria. Ele é visionário e dá o sangue por seus filmes, com esse ele faz mais uma obra que debate sobre algo, mesmo que não diretamente. As atuações estão excelentes e o roteiro tem seus autos e baixos. Não é tudo nele que é aproveitável, tem cenas que se estendem muito propositalmente, só para que o telespectador curta o visual. Há cenas fortes como a que ele prepara sua cama na carcaça, mas há outras eletrizantes como a perseguição do inimigo no final que leva a um combate sangrento. Acima de tudo é um filme belo e bem feito. 

Indicados ao Oscar: Brooklyn


             Brooklyn é provavelmente o filme mais leve dos indicados ao Oscar. Diante dos indicados de melhor filme que possuem roteiros dramáticos, sofridos, políticos, com ação desenfreada e tantas outras coisas pesadas esse é o sopro de alivio e frescor que precisávamos.
            Esse é um filme dramático disfarçado de romance dirigido por John Crowley e roteiro de Nick Hornby (do filme Livre) onde acompanhamos a Irlandesa Eilis Lacey que sai de seu pais para tentar a vida nos Eua, mais precisamente no Brooklyn.
Isso dela deixar sua pátria por outra para tentar uma vida melhor pode parecer um tema saturado e algumas coisas do filme realmente fazem jus a sinopse e o pré-julgamento das pessoas quanto a ele. Na Irlanda ela trabalha em uma padaria para uma megera e odeia o que faz, odeia também as pessoas e a falta do que fazer na sua pequena cidade. O filme mostra a realidade das cidades interioranas onde todos tomam conta da sua vida e inventam coisas. Além do cotidiano pacato e sem graça, com pessoas pouco interessantes e so boring. Por tudo isso a irmã da protagonista entra em contato com um padre amigo dela para que ele a ajude a acolher sua irmã na América para que ela tenha uma vida melhor. A tristeza e insatisfação da protagonista quando está na Irlanda é evidente através da fotografia noturna. A escuridão da cidade revela a alma da mocinha, mas quando ela chega aos Eua as cores se acendem na tela. O sol começa a brilhar quando ela cruza a porta de entrada para o seu novo pais, seu novo lar. Ali as roupas ficam mais amarelas, vermelhas, coloridas e aos poucos ela vai deixando suas características de menina pacata do interior.

              No começo ela é uma menina tímida, fechada e que não consegue se expressar. Tem medo das pessoas e do futuro, mas aos poucos vai tomando confiança e se tornando uma mulher madura e corajosa. O fator predominante para essa mudança acontece quando ela conhece Anthony, um rapaz italiano, sem muita instrução, mas bastante trabalhador. Eles começam a namorar e o carinho e a confiança que ele transmite a ela vai a mudando sem ela perceber. Faz tempo que não vemos um personagem tão doce como Tony. Ele não faz jogos com sua namorada e nem tenta parecer ser algo que ele não é. Ele é verdadeiro em todas suas promessas e desejos. Sua fidelidade a menina é encantadora e não de uma forma clichê e melodramática, mas é algo que flui sem esforço. É algo que é totalmente normal, mas no mundo de hoje e com os relacionamentos de hoje parece ser algo fora do comum. Ele é muito bem interpretado por Emory Cohe, um ator com uma beleza clássica e que muito me lembrou do ator teen dos anos 80 Andrew Mccarthy. Quem faz a protagonista é a linda da Saoirse Ronan que está concorrendo o Oscar de melhor atriz pelo papel e antes já havia concorrido como melhor atriz coadjuvante por Desejo e Reparação. Ela é uma atriz bem sensata na escolha de seus trabalhos. Deu algumas derrapadas, mas nada que pudesse comprometer seu talento. Neste ela está totalmente convincente como a mocinha tímida e depois como a mulher independente e trabalhadora. É incrível ver seu crescimento (tanto na tela quanto na vida real). Ela tem uma atuação discreta, porém expressiva e sabe controlar muito bem suas emoções, apesar de achar que ela não leva o Oscar, sua indicação foi mais do que merecida.


        Além dos protagonistas, outra atuação que merece destaque é a de Domhnall Gleeson (o ruivinho que está em todas) ele entra da metade do filme para o final e não tem muitas cenas, mas tem uma atuação marcante em cada uma. Julie Walters de Harry Potter também está no filme e apesar de caricata também tem uma boa atuação.
           Brooklyn é um lindo romance e um ótimo drama. Com uma fotografia significativa, um roteiro simples, mas bem trabalhado e uma competente direção juntamente com competentes atuações. Mesmo que a principio enfatize demais o american way of life, algo bem batido, isso não consegue tirar a sensibilidade e a pureza do filme. Não é um filme sobre um relacionamento perfeito, a protagonista tem certas atitudes que dá vontade de sacudir ela, mas depois percebemos que aquilo precisava acontecer para seu crescimento pessoal e para que visse que estava tomando a decisão certa. Quando você for ver os filmes que estão concorrendo ao Oscar e estiver cansado dos dramalhões assista esse para respirar um pouquinho. Valerá a pena.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Indicados ao Oscar: Creed: Nascido para Lutar


          Que filmes sobre boxe fazem sucesso disso não temos a menor duvida. Ele é o esporte mais prestigiado da academia e o que causa essa fascinação toda? Por que filmes sobre outros esportes não ganham tantos prêmios como ele?
          Geralmente porque todo filme sobre Boxe trás uma grande historia de luta e superação. Não que os outros não tragam, mas geralmente o foco dos outros são um grupo e não uma única pessoa. Claro que não posso generalizar. Mas posso afirmar quando digo que todos os filmes com o tema são muito bem ambientados com roteiro dramático, bons diretores e boas atuações. Grandes nomes Já atuaram em filmes sobre o Boxe, como Charlie Chaplin, Robert De Niro, Paul Newman e Russel Crowe e grandes filmes foram feitos e venceram muitos prêmios como Touro indomável, O Campeão e Menina de Ouro. Esse ultimo protagonizado por Hillary Swank, provando que apesar de ser um esporte predominantemente masculino ele também é para mulheres. De todos esses um dos mais famosos, com milhares de fãs e que eternizou o esporte foi Rocky. Escrito por Sylvester Stallone num momento muito difícil de sua vida, ele só aceitou vender seu roteiro se ele estrelasse o filme. Claro que eles queriam alguém famoso, mas o ator teve persistência e conseguiu o papel. Rocky é até hoje o maior sucesso da carreira de Stallone. A tocante historia, a trilha sonora, e as cenas emocionantes marcaram toda uma geração de cinéfilos.
E agora temos a continuação da jornada de Rocky, mas quem protagoniza essa nova trama é o filho de seu adversário e posteriormente amigo Apollo Creed. Nele conhecemos Adonis Johnson, na primeira parte do filme uma criança problemática que vive em um reformatório até ser adotado pela esposa de Apollo (ele era filho de uma relação extraconjugal). Quando adulto entra para o mundo do boxe a fim de seguir os passos do pai.
A primeira parte do filme é a típica historia do menino pobre e abandonado que não conheceu o pai, mas quando é adotado as coisas saem um pouco do protocolo de sofrimento dos filmes sobre boxeadores. Ele tem uma boa vida numa mansão luxuosa (herança do papai) e tem um bom emprego, mas não se sente realizado nele por isso vai em busca daquilo que está em seu sangue. Ele abre mão do luxo e vai morar num apartamento pobre na Filadélfia para ser treinado por Rocky.

          Rocky vive sozinho e trabalha em seu restaurante. No começo ele declina do convide de treinar Adônis, mas logo se vê envolvido. Provavelmente ele enxergou a luta de Apollo e sua luta pessoal no rapaz. Stallone está muito bem no papel, como não vemos em anos. Ele estava tão envolvido em projetos de “brucutus” que não saia da sua zona de conforto. Nesse temos um vislumbre da competente atuação dos outros filmes do Balboa, claro que nada extraordinário, pois Stallone tem algumas limitações, mas nos pegamos torcendo por ele graças a sua determinação. Ele acredita tanto nas coisas que ele faz e se doa tanto que perdoamos qualquer falha em seu desempenho. Neste filme Balboa está muito mais debilitado e sofrendo pela sua solidão. (mesmo que ele não diga isso) seu personagem é o reflexo de muitas pessoas em sua faixa etária. Os filhos cresceram e tem suas próprias vidas (com emprego, esposa, marido filhos e etc..) e os pais são deixados um pouco de lado. Ainda mais quando seu marido ou esposa já faleceram. Como é o caso dele, o amor de sua vida, sua esposa Adrian já é falecida há vários anos e agora ele também não tem a companhia do cunhado e amigo Paulie. E, além disso, ele recebe uma péssima noticia. Temos um sentimento melancólico ao analisar o final da trajetória de Rocky, mas esses filmes são movidos a uma única carga de energia: esperança e superação (no caso duas rs) e logo somos animados novamente.


Mas não se enganem pensando que Sly é o melhor personagem do filme, quem rouba a cena por causa de sua excelente atuação é Michael B. Jordan. Esse é um bom ator que só cai em armadilhas cinematográficas o fazendo desperdiçar talento. Esteve antes no fracasso O Quarteto fantástico. Sua performance é calma e controlada mas ao mesmo tempo explosivo em algumas cenas. Ele atua de forma tão equilibrada e sem exageros que fica difícil lembrar que seu currículo não é tão extenso assim. Ele merecia muito uma indicação ao Oscar (e a todos os prêmios da temporada), mas parece que esse ano não abriu inscrição para a “cota” Até quando? Ele está tão bom quanto Stallone.
          A atriz Tessa Thompson que interpreta Bianca a namorada do protagonista também é um talento a ser construído. Ela faz de Bianca uma personagem forte e determinada, apesar de seus problemas pessoais, ela não é apenas a namorada, ela é a incentivadora, o porto seguro, ela é a Adrian dele. Os outros personagens são descartáveis. A trama não tem um mega vilão. Só o adversário de ringe, como em qualquer luta de boxe.
         Creed merece todas as críticas positivas possíveis. O jovem diretor Ryan Coogler foi uma escolha acertada para o filme, passou toda sua modernidade técnica para a velha e eterna franquia. Claro que deu algumas escorregadas, mas até um Spielberg da vida também dá. Creed está maior em fotografia, edição, montagem e tudo... Só se iguala ao primeiro Rocky nas categorias roteiro e trilha sonora, não tem como. Esse projeto poderia ter dado MUITO errado, mas de alguma forma funcionou. Força do boxe? Qualidade das pessoas envolvidas? Acho que tudo isso e mais um pouco. E o melhor de tudo é a nostalgia que envolve fãs como eu e talvez você.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Indicados ao Oscar: Review A Garota Dinamarquesa



          A Garota Dinamarquesa é um filme baseado no romance do autor Ebershof e foi inspirado no diário da personagem transexual Lili. O filme é a cinebiografia de Lili Elbe que nasceu como Einar Wegener e foi uma das primeiras pessoas a realizar a cirurgia de mudança de sexo. Nesse filme vemos o quão doloroso é a fase da transição e aceitação por parte da sociedade, dos entes queridos e da própria pessoa.
O filme se passa nos anos 20 e esse foi um dos primeiros casos transexuais, na época vemos a reação espantosa por parte das pessoas e ao pararmos para analisar vemos que todo esse espanto e preconceito ainda é muito atual, mesmo tendo se passado tantos anos e mesmo o mundo tendo mudado tanto.
          Muitas pessoas criticaram o livro e o filme pois dizem que ele não é fiel ao diário escrito por Lili Elber. Eles omitiram muitas coisas, principalmente quanto a sexualidade de Gerda que era esposa de Einar, dizem que ela era lésbica ou ao menos bissexual, o que é um pouco visível no filme, mas em nenhum momento se afirma nada. Criticaram também a relação das duas, dizendo que não era tão romântica e eterna da forma que é retratada no filme. É claro que Hollywood tinha que exagerar na “história de amor” das duas.

A relação de Lili e Gerda pode até não ter sido como é retratado no filme, mas é um dos pontos fortes da trama. A amizade, o amor e o respeito são tão grandes que emociona. Mesmo Gerda apoiando a escolha do marido podemos perceber que não há uma aceitação por completo. A esperança de que aquilo seja apenas uma fase ou um jogo (como era no começo) está sempre ali no olhar da personagem. Ela ama seu marido e se arrepende de ter incentivado a libertação de Lili. Quando ela começa a surgir e Einar vai perdendo o espaço somos levados a acreditar que foi a esposa que incentivou aquele comportamento. O pedido para vestir as roupas para que ela pudesse terminar seus quadros (ambos eram pintores) começou a liberar alguém que a muito tempo se mantinha escondida, mas nunca tinha sido revelada. Depois fica comprovado que ele não mudou por influência de Gerda pois ele sempre foi Ela.


          Eddie Redmayne está concorrendo ao Oscar pelo filme e se não tivesse o Leonardo Dicaprio na parada aposto que ele levaria seu segundo Oscar consecutivo. Ele está tão delicado e tão bem no papel. Não consigo ver mais nenhum ator de Hollywood fazendo esse papel. Ninguém poderia captar a sensibilidade da alma de Lili como ele captou. É claro que seus traços femininos ajudaram bastante. Seu rosto fino, sua pele perfeita para maquiagem, os lábios, o corpo esguio e a forma como anda e fala é propriamente de uma mulher. Só um ator como ele, com todos seus atributos poderia interpretar com tamanha sensatez. Seu laboratório foi bem aprofundado, mostra-se uma observação total dos trejeitos femininos. Alicia Vikander quase rouba a cena na pele da Esposa Gerda Wegener. Ela vem provando que é uma ótima atriz e uma grande revelação. Nesse, assim como em Ex machina ela está maravilhosa. Sempre com uma atuação sutil, apesar das explosões da personagem algumas vezes. Ela é claramente o homem da relação, desde o começo, ela que rege o lar e é uma esposa dedicada e que ama o marido apesar de tudo. Mesmo quando ele não queria, ela estava lá por ele e o filme a torna praticamente uma santa pois qual mulher nesse mundo aceitaria essa condição do marido sem raiva e rancor? E que ficaria ao lado dele mesmo após a cirurgia de mudança de sexo? Isso prova que acima de tudo ela era a melhor amiga e companheira dele. Coisa que muitas mulheres não são. Ambos tiveram sorte de ter um ao outro (posteriormente uma a outra) pois o amor era mutuo. Os sentimentos de Egnar por ela não diminuíram após virar Lili. Elas foram feitas uma para outra, independente do rumo de suas vidas.
          Com direção do diretor britânico Tom Hooper que fez o subestimado O discurso do Rei, The Danish Girl tem boas atuações (pena que Amber Heard esteja tão apagada) e um roteiro linear, nada de excepcional, você começa a assistir e já sabe a trajetória só não sabe como acontecerá. É um tema bastante delicado e que ainda carece de informações. Foi muito difícil escrever sobre esse filme pois apesar de ser algo atual e bastante debatido ainda fico na defensiva ao escrever sobre algo que não conheço tão bem, estamos menos familiarizados do que achamos. O filme me lembrou bastante do caso Caitlyn Jenner (que era Bruce Jenner e marido da Kris, matriarca das Kardashians) lembro que quando ele se assumiu uma mulher eu fiquei bastante confusa. De primeira achei que fosse marketing (ainda tenho minhas desconfianças) e não entendia como um homem de certa idade, com esposa e filhos pudesse se transformar assim de uma hora para outra. Lembro da reação da Kris e vi seu desapontamento e tristeza, tão real e diferente da relação perfeita e idealizada de A Garota Dinamarquesa. Porém é algo que te toca e o final é lindo e cheio de metáforas.